Corrida para os Óscares: Amour

AmourAmour é feito de dualidades: é triste e ternurento, é perturbador e estranhamente reconfortante, mas acima de tudo é verdadeiro. O filme de Michael Haneke junta dois grandes vultos do cinema francês Jean-Louis Trintignant, o galã de Un homme et une femme, e Emmanuelle Riva, a actriz principal de Hiroshima, mon amour, ambos agora despidos de todo o glamour e beleza que pautou as suas carreiras.

Riva e Trintignant são Anne e Georges, um casal de professores de música reformados. Aparentam ainda ser activos, frequentam concertos e vivem os dois felizes, sozinhos na sua casa em Paris. Quando uma manhã, após terem ido ao concerto de um antigo pupilo na noite anterior, Anne tem o que parece ser uma trombose e fica com o lado esquerdo do corpo paralisado.

Georges, que na noite anterior era espectador de um agradável concerto, é agora espectador do triste e lento fim da vida da mulher que ama. Apesar de presenciarmos todo o carinho com que Georges cuida de Anne, conseguimos sentir o quanto lhe dói ver que a sua mulher começa a transformar-se numa sombra do que outrora foi. Georges é então confrontado com a vontade egoísta que todos nós temos de querer que as pessoas que amamos vivam para sempre, estejam em que estado estiverem, e a vontade de deixar partir uma pessoa que não iria querer chegar àquele ponto.

A mestria com que os actores interpretam os seus papéis envolve e emociona o espectador. Emmanuelle Riva faz um trabalho de interpretação impressionante e consegue transmitir não só todas limitações físicas que a doença traz como também o seu impacto emocional.

Amour não deixa ninguém indiferente mas toca particularmente quem já lidou com esta realidade, quem já teve de assistir à degradação gradual de alguém que ama. Quem já foi cuidador de um familiar poderá rever-se em Georges; quem já assistiu à distância à doença de um familiar poderá rever-se em Eva, a filha que não aceita e tenta racionalizar demasiado a situação; quem já teve uma pessoa que admira nesta situação poderá rever-se em Alexandre, o pupilo que acaba por se afastar porque não consegue vê-la naquele estado. A cena inicial revela logo como esta história irá acabar, mas tal como na vida real nada nos prepara para a morte.

A qualidade de Amour garantiu-lhe não só a nomeação para Melhor Filme Estrangeiro como também as nomeações para Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento Original. Também a performance de Emmanuelle Riva foi brindada com a nomeação para Melhor Actriz, mas é de lamentar que Jean-Louis Trintignant não tenha sido nomeado para Melhor Actor. Não posso deixar de realçar também a agradável surpresa que foi ver Rita Blanco a fazer parte do elenco de um filme deste calibre.

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