Monthly Archives: October 2010

doclisboa 2010

A edição de 2010 do doclis­boa, orga­ni­zado pela Apor­doc, começa já esta quinta-feira, dia 14 de Outubro, com a estreia de “José & Pilar”, sobre a relação entre José Saramago e Pilar del Rio. O festival irá decorrer nas salas da Culturgest, nos cinemas Londres, São Jorge, Cinema City Classic Alvalade e na Cinemateca Portuguesa até dia 24 de Outubro, encerrando com uma ficção – My Joy, de Sergei Loznitsa.

O festival vai também exibir uma retrospectiva do “pai do documentário”, o cineasta holandês Joris Ivens. Serão exibidos 39 filmes seus, e o festival contará com a presença de Marcelina Loridan-Ivens, viúva e assistente do realizador. Haverá ainda duas outras retrospectivas: de Jørgen Leth e de Marcel Ophuls.

A programação pode ser consultada no site do festival e os bilhetes já estão à venda desde 1 de Outubro na bilheteira central instalada na Culturgest. O bilhete normal para cada sessão custa €3.50, mas com desconto para estudantes fica a €3 (apenas na Culturgest e no Cinema São Jorge). Os bilhetes para a Cinemateca são € 2.50. Para quem preferir há ainda o voucher de 10 bilhetes, vendido exclusivamente na bilheteira da Culturgest, e que custa €25.

As minhas recomendações para o doclis­boa 2010:

Na secção investigações:

Oil Rocks, City Above the sea – Marc Wolfensberger

Um documentário sobre um conjunto de plataformas petrolíferas mandadas construir por Estaline, em 1949, e que se estendem no mar Cáspio como uma vasta cidade. O documentário (o primeiro realizado por uma equipa de filmagem ocidental neste local) combina imagens de arquivo a preto e branco com filmagens actuais, contando a história de Neft Daşları e dos seus peculiares habitantes.

Into Eternity – Michael Madsen

Um filme, em género de carta para as gerações futuras, sobre a contrução, na Finlândia, de um túmulo para despojos nucleares  e onde se espera que estes fiquem durante largos milhares de anos.

The forgotten space – Allan Sekula e Noël Burch

A câmara segue os contentores de navios de carga, barcos, comboios e camiões, ouvindo trabalhadores, engenheiros, gestores de transportes, políticos e marginalizados pelo sistema global de transportes.

Na Competição Internacional – Longas:

Steam of Life – Joonas Berghäll

Os realizadores viajam pela Finlândia, reunindo personagens com diferentes percursos de vida, que contam as suas histórias sobre o amor, a morte, o nascimento, a amizade, dentro de uma sauna.

Na Competição Portuguesa – Longas e Médias:

Yemen Travelogue – days at Shibam and Seiyun – Michael Pilz

O retrato de uma viagem a Sana, a capital da República do Yemen, e Shibam, a lendária e antiga “Manhattan do deserto”.

Outros filmes de interesse no festival:

Tonite Let’s All Make Love in London

Complexo – Universo Paralelo

A Festa dos Rapazes

The Giant Buddhas

Last Train Home

Nomad’s Land – Sur les traces de Nicolas Bouvier

Petropolis – Aerial Perspectives on the Alberta Tar Sands

The Woman with the 5 Elephants

Wolfram, a Saliva do Lobo

Man with no Name

Aos pacotes

Há poucos dias ficámos a saber que os resultados da consulta pública sobre a net neutrality, levada a cabo pela Comissão Europeia, só serão conhecidos em 2011. Com os resultados desta consulta irá ser elaborado um relatório que espelha a opinião dos interessados (consumidores, empresas, investigadores, etc.) sobre a possibilidade dos ISPs (Internet Service Providers) ou até dos próprios governos poderem restringir o acesso a qualquer conteúdo na rede. Infelizmente qualquer que seja a conclusão da consulta esta não é vinculativa e, em princípio, não resultará em qualquer alteração da legislação.

Mas afinal o que é isto da net neutrality?

O princípio da net neutrality consiste na ideia de que todas as informações que circulam na web devem ser tratadas da mesma forma, sem que a velocidade de acesso seja maior ou menor para determinado conteúdo.

A net neutrality é um tema muito importante e complexo com duas facções bem distintas: os oponentes à net neutrality e os que são favoráveis a esta. Os opositores da neutralidade da rede incluem algumas grandes empresas de hardware e membros das indústrias de telecomunicações. Estes defendem que a neutralidade da rede limitaria a quantidade de banda disponível e também alegam que esta não ofereceria incentivos para inovação, porque os ISPs não ganhariam nada em investir em melhores tecnologias. Defendem a criação de diferentes pacotes de acesso aos conteúdos, com a aplicação de taxas que fazem variar a velocidade da Internet.

Por sua vez os apoiantes da net neutrality defendem que esta sim permite que haja inovação. Lawrence Lessig, numa review que fez do filme “The Social Network” para o The New Republic, afirmou que «como a plataforma da Internet é aberta e gratuita, ou na linguagem do dia, porque é uma “rede neutra”, um bilhão de Mark Zuckerbergs têm a oportunidade de inventar para a plataforma.» Ao colocar entraves à liberdade desta plataforma (Internet) estaríamos a reduzir as possibilidades de outros jovens com ideias de as poderem executar e de serem bem sucedidos.

«For less than $1,000, he (Mark Zuckerberg) could get his idea onto the Internet. He needed no permission from the network provider. He needed no clearance from Harvard to offer it to Harvard students. Neither with Yale, or Princeton, or Stanford. Nor with every other community he invited in.»

Lawrence Lessig

A neutralidade da rede assegura que a Internet seja livre, aberta e democrática – igual para todos. É este o princípio que rege a Internet desde a sua criação e que a tornou numa força económica, política e socialmente poderosa. Foi por todo o conteúdo ser tratado de igual forma e distribuído à mesma velocidade, sem qualquer tipo de discriminação, que nasceram projectos como o Google, a Wikipedia, o Facebook, etc.

Gosto de pensar na Internet como uma biblioteca: posso ter acesso a qualquer livro que lá exista. Numa biblioteca ninguém me pede para eu escolher se quero ter acesso apenas a livros de ficção científica ou a romances, estão todos disponíveis com a mesma facilidade. O sistema de pacotes que os ISPs poderão criar se não houver net neutrality são como uma biblioteca na qual os leitores tem de escolher a que secções terão acesso: os consumidores terão de escolher se querem o pacote das redes sociais ou o pacote dos sites de vídeos (ex: Youtube), e se os quiserem a todos a mesma velocidade terão de pagar mais.

Seria um modelo mais parecido com o dos canais de televisão por cabo onde onde algumas empresas acabam por controlar o que o público vê e o quanto este paga. O modelo de negócio da Internet, havendo neutralidade na rede, assemelhasse mais com o modelo da rádio no qual todos os consumidores têm acesso ao mesmo, da mesma forma e não têm de pagar mais para ter a rádio x ou y.

O fim da net neutrality prejudicaria tanto os consumidores como os produtores de conteúdos pois poderia coloca-los em desvantagem em relação às grandes empresas. Sem neutralidade, uma grande empresa, com grandes possibilidades económicas, poderia pagar a um fornecedor de Internet para que aceder ao seu site fosse mais rápido do que aceder ao site de um concorrente seu.

O legado de Lula da Silva

Em época de mudança de governo no Brasil é importante o mundo reflectir sobre o impacto dos oito anos de governo de Lula da Silva. É inegável a sua influência e por isso o carismático presidente até foi considerado pela revista Time o líder mais influente do mundo, façanha nunca antes alcançada por um presidente do Brasil.

Apesar de alguns escândalos Luiz Inácio Lula da Silva alcançou níveis de popularidade históricos, que não se desgastaram com o tempo. Provavelmente por causa dos grandes contributos que fez para o estado social e para a economia do país ou então pelo facto da população se identificar muito com ele: é inclusivamente conhecido como o “pai do povo”.

No entanto as políticas de Lula que eu gostaria de realçar não são os seus apoios sociais ou os contributos que fez para a estabilidade económica do país, apesar de estarem intimamente ligadas a estes. Quero destacar as políticas de adopção do software livre.

Em várias ocasiões o presidente Lula da Silva falou sobre a importância do software livre e, apesar de em Portugal não ser de conhecimento comum, ele foi o grande impulsionador do uso de software livre pelo governo brasileiro. Graças a Lula as Forças Armadas Brasileiras, a Caixa Económica Social e Banco do Brasil aderiram ao uso do software de código aberto e segundo ele, desde que o governo adoptou o software livre, poupou (até 2009)  R$ 370 milhões (160.424321milhões de euros) em licenciamento de software.

Aquando da sua participação no FISL 10 (10º Fórum Internacional Software Livre, em 2009) Lula da Silva explicou que a decisão foi difícil e não foi unânime. “Houve uma tensão imensa entre aqueles que defendiam a adopção no Brasil do software livre e aqueles que achavam que nós deveríamos fazer a mesmice de sempre, ficar do mesmo jeito, comprando e pagando a inteligência dos outros.”

Tal como acontece em Portugal e em muitos outros países, o Brasil também tinha despesas supérfluas com licenciamento de software, despesas que facilmente podiam ser (e foram) evitadas adoptando soluções livres. “Porque nós tínhamos que escolher: ou nós íamos para cozinha preparar o prato que nós queríamos comer, com os temperos que nós queríamos colocar e dar um gosto brasileiro na comida, ou nós iríamos comer aquilo que a Microsoft queria vender para a gente”, afirmou Lula no FISL 10. A utilização de software livre e aberto por parte do estado não se traduz apenas no corte da despesa mas também permite que o software utilizado seja mais à medida das necessidades dos utilizadores.

No entanto não foi só na administração pública e nos organismos do governo que Lula da Silva optou pelo software livre. No Brasil, o software livre também tem sido uma importante ferramenta para a democratização do conhecimento. A prova disso é o Programa Brasileiro de Inclusão Digital, que inclui o Projecto Computador para Todos e o Programa um Computador por Aluno. Ambas as iniciativas usam apenas software livre nos equipamentos. Aliás na portaria referente ao Projecto Computador para Todos uma das exigências que são descritas na especificação das características mínimas dos programas é “software livre de código aberto, com permissão de uso, estudo, alteração, execução e distribuição”.

Computador para Todos é um projecto que tem como objectivo principal possibilitar que a população que não tem acesso ao computador possa adquirir um equipamento de qualidade e tenha direito a suporte (tanto para atendimento técnico para resolver problemas com software e hardware, como esclarecimentos sobre a utilização do computador). “São computadores de qualidade, produzidos por brasileiros, que, do ponto de vista da criatividade e da competitividade, não devem nada à ninguém”, afirma Lula.

O Programa um Computador por Aluno é uma iniciativa que visa distribuir computadores para os alunos da rede pública de ensino semelhante à iniciativa e-escolinhas, mas não utiliza o sistema operativo da Microsoft, o Windows. Até o final de 2010, o Ministério da Educação brasileiro deverá entregar 150 mil computadores em 300 escolas públicas.

Numa altura em que o governo português está em contenção orçamental em vez de pedir aos portugueses que façam sacrifícios, podia inspirar-se nos bons exemplos de Lula da Silva e cortar na despesa trocando licenciamento de software proprietário por software livre a custo zero com suporte dado por portugueses.