Monthly Archives: February 2013

Corrida para os Óscares: Amour

AmourAmour é feito de dualidades: é triste e ternurento, é perturbador e estranhamente reconfortante, mas acima de tudo é verdadeiro. O filme de Michael Haneke junta dois grandes vultos do cinema francês Jean-Louis Trintignant, o galã de Un homme et une femme, e Emmanuelle Riva, a actriz principal de Hiroshima, mon amour, ambos agora despidos de todo o glamour e beleza que pautou as suas carreiras.

Riva e Trintignant são Anne e Georges, um casal de professores de música reformados. Aparentam ainda ser activos, frequentam concertos e vivem os dois felizes, sozinhos na sua casa em Paris. Quando uma manhã, após terem ido ao concerto de um antigo pupilo na noite anterior, Anne tem o que parece ser uma trombose e fica com o lado esquerdo do corpo paralisado.

Georges, que na noite anterior era espectador de um agradável concerto, é agora espectador do triste e lento fim da vida da mulher que ama. Apesar de presenciarmos todo o carinho com que Georges cuida de Anne, conseguimos sentir o quanto lhe dói ver que a sua mulher começa a transformar-se numa sombra do que outrora foi. Georges é então confrontado com a vontade egoísta que todos nós temos de querer que as pessoas que amamos vivam para sempre, estejam em que estado estiverem, e a vontade de deixar partir uma pessoa que não iria querer chegar àquele ponto.

A mestria com que os actores interpretam os seus papéis envolve e emociona o espectador. Emmanuelle Riva faz um trabalho de interpretação impressionante e consegue transmitir não só todas limitações físicas que a doença traz como também o seu impacto emocional.

Amour não deixa ninguém indiferente mas toca particularmente quem já lidou com esta realidade, quem já teve de assistir à degradação gradual de alguém que ama. Quem já foi cuidador de um familiar poderá rever-se em Georges; quem já assistiu à distância à doença de um familiar poderá rever-se em Eva, a filha que não aceita e tenta racionalizar demasiado a situação; quem já teve uma pessoa que admira nesta situação poderá rever-se em Alexandre, o pupilo que acaba por se afastar porque não consegue vê-la naquele estado. A cena inicial revela logo como esta história irá acabar, mas tal como na vida real nada nos prepara para a morte.

A qualidade de Amour garantiu-lhe não só a nomeação para Melhor Filme Estrangeiro como também as nomeações para Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento Original. Também a performance de Emmanuelle Riva foi brindada com a nomeação para Melhor Actriz, mas é de lamentar que Jean-Louis Trintignant não tenha sido nomeado para Melhor Actor. Não posso deixar de realçar também a agradável surpresa que foi ver Rita Blanco a fazer parte do elenco de um filme deste calibre.

Corrida para os Óscares: Anna Karenina

Anna KareninaJoe Wright apostou mais uma vez em trazer um grande clássico literário ao grande ecrã e mais uma vez com Keira Knightley no papel principal. Desta vez é Anna Karenina, a história de amor trágica de Leo Tolstoi sobre uma mulher que está disposta a perder tudo, inclusivamente o filho, para ficar com o homem que ama e sem se dar conta que o preço a pagar pelas acções será demasiado caro.

Mas Anna Karenina não é apenas sobre este amor entre Karenina e Vronski, é também uma sátira social e uma forma de Tolstoi expressar os seus ideais. Neste filme Wright e Stoppard deram o destaque merecido a esta terceira componente do romance de Tolstoi ao dar o devido destaque a Levin, interpretado por Domhnall Gleeson. Muito à semelhança de Tolstoi, Levin é um fazendeiro idealista com uma forte ligação à terra e aos seus servos, ao lado dos quais trabalha como se fosse um deles.

A história de Levin é uma lufada de ar fresco no filme, até porque é a única acção que não decorre dentro do teatro. Todo o resto do enredo está confinado ao espaço do teatro incluindo as cenas nas corridas de cavalos. Todos os espaços do teatro são aproveitados: a teia, a plateia, os camarotes, o espaço debaixo do palco,etc.

Não há dúvidas de que Wright foi bastante arrojado e inovador na sua adaptação de Anna Karenina. Este é um filme sumptuoso com cenários majestosos, um guarda roupa extravagante e uma fabulosa direcção artística (estas duas últimas dignas de nomeações para os Óscares). Não posso também deixar de destacar a qualidade da banda sonora de Dario Marianelli (também nomeada para um Óscar) e a notável edição e mistura de som. Anna Karenina foi também nomeado para o Óscar de Melhor Fotografia.

No entanto Anna Karenina acaba por ser demasiado ambicioso. A acção dentro do teatro acaba por ser algo confusa e a performance dos actores é demasiado teatral. Além disso, toda a sumptuosidade do filme acaba por ofuscar a história. Um enredo como o de Anna Karenina não deveria ser deixado para segundo plano.

Corrida para os Óscares: The Flight

FlightLogo na primeira meia hora de Flight Robert Zemeckis brinda-nos com uma das cenas de voo mais aterrorizadoras dos últimos tempos.Vemos Whip Whitaker, interpretado por Denzel Washington, controlar um avião que seguia numa descida vertiginosa virando-o ao contrário e aterrando-o num descampado causando apenas 6 vítimas.

No entanto, até mesmo antes das cenas que decorrem no avião já sabemos que este voo estava condenado. Na véspera do voo Whip embebeda-se e mesmo antes de voar consome cocaína e toma mais duas pequenas garrafas de vodka. Desde logo percebe-se que Whip tem um problema com o álcool e após o acidente o seu problema torna-se ainda maior quando começam a aparecer indícios de que o  herói estava alcoolizado.

E assim a história começa a transformar-se numa lição sobre dependência e recuperação. Whip é consumido pela culpa, fica ainda mais preso ao seu vício e terá de escolher entre mentir ou admitir que estava sob a influência, não só de álcool mas também de substâncias ilícitas. No decorrer do filme ainda ficamos a conhecer a relação que ele tem com a família e presenciamos o desenrolar de uma relação amorosa com uma mulher que também está a lutar contra os seus problemas de dependência.

O tom quase didáctico do filme infelizmente faz com que o espectador perca rapidamente o fôlego  especialmente quando as cenas iniciais são tão fortes e deixam a desejar mais. Quase que o espectador deseja que o acidente de avião acontecesse mais à frente no filme para que a energia se mantivesse. Denzel Washington como sempre é extremamente competente, suavemente desvendando um processo de transformação na personagem que passa de um homem arrogante e um totalmente destruído pelo sentimento de culpa,  e não é em nada responsável pelo desinteresse que o espectador possa sentir ao longo do filme. No entanto o seu talento, recompensado com a nomeação para o Óscar de Melhor Actor, também não consegue dar mais ânimo ao filme. Flight acaba assim por ser apenas um filme mediano que conta com uma interpretação brilhante e uma cena inicial fantástica.