Monthly Archives: February 2013

Corrida para os Óscares: The Impossible

The ImpossibleThe Impossible (Lo Imposible no seu título original) não é apenas a história do maior desastre natural de que há memória, é um conto de sobrevivência sobre os fortes laços familiares, a perseverança e a vontade de viver. Juan Antonio Bayona conseguiu mostrar a agonia que as pessoas sentiram durante o tsunami de 2004, a terrível sensação de ser completamente impotente face à força da natureza e o drama de sobreviver num ambiente de destruição.

The Impossible é de um realismo assustador e Bayona demonstra ter uma atenção ao detalhe impressionante. Nada foi deixado ao acaso: a luz, a edição de som, para não falar dos efeito especiais. Em The Impossible o domínio da técnica é inegável, mas é com os seus personagens que Bayona realmente cativa o espectador.

As duas figuras centrais do filme são claramente Maria e Lucas, interpretados por Naomi Watts, nomeada por este papel para o Óscar de Melhor Actriz, e pelo jovem Tom Holland respectivamente. Maria, apesar de frágil mantém aquela força de mãe que a impede de desistir, mas parte dessa força vem do facto de ter o seu filho Lucas a seu lado. Lucas é um pequeno herói pois no meio de tanta desgraça, com a mãe muito doente e perdido do pai e dos irmãos mais novos, ainda encontra coragem para ajudar a reunir algumas famílias. Apesar de ser ainda um miúdo Tom Holland conseguiu demonstrar o pânico contido de uma criança que não se pode ir abaixo porque tem de proteger a mãe.

Com um papel de menor destaque Ewan McGregor também tem alguns momentos poderosos durante a sua busca pelo resto da família. O momento em que McGregor liga para casa pela primeira vez é terrivelmente angustiante e nesses breves momentos ele mostra o brilhante actor que é.

O filme de Bayona tinha tudo para se um drama pesado e difícil. No entanto, graças ao belíssimo argumento de Sergio G. Sánchez, o drama natural da história é quebrado por pequenos apontamentos de ternura: pequenos gestos de carinho, olhares reconfortantes e pequenas coisas que nos fazem acreditar num final menos infeliz. São estes momentos e este equilíbrio tão bem conseguido entre o desespero e a esperança que tornam The Impossible tão especial. Pode não ter sido reconhecido como um dos melhores filmes do ano mas é certamente o que mais emociona.

Corrida para os Óscares: The Master

The MasterÀ primeira vista The Master poderia parecer um filme sobre o líder carismático de um culto. No entanto, na verdade o filme de Paul Thomas Anderson centra-se em Quell, interpretado por Joaquin Phoenix, um homem perturbado que se deixa seduzir pela Causa e pelo seu líder, Lancaster Dodd.

Dodd, magistralmente interpretado por Philip Seymour Hoffman, é supostamente baseado no escritor e fundador da Cientologia L. Ron Hubbard. Ele diz-se um homem da ciência, é escritor, doutor, físico nuclear, filósofo, mas na verdade não passa de um charlatão.

Quando conhece Quell, Lancaster Dodd fica fascinado e vê nele a perfeita cobaia para aplicar para as suas teorias. Freddie Quell vive miserável e desorientado depois de ter servido na Marinha durante a Segunda Guerra Mundial e por isso torna-se um alvo fácil para a canção do bandido de Dodd.

No entanto rapidamente a relação de ambos vai muito para além da relação médico/paciente e eles tornam-se companheiros de copos e amigos. Mas ao mesmo tempo Quell vê Dodd como um mestre, um Messias.  A relação de interdependência que surge entre ambos incomoda e confunde os leais discípulos de Dodd, incluindo a sua mulher, aqui interpretada por Amy Adams.

Muito do sucesso de The Master deve-se a Philip Seymour Hoffman e Joaquin Phoenix ambos com performances fantásticas, dignas de um Óscar. O primeiro num papel secundário mas com a competência a que já nos habituou e o segundo no papel principal e de certa forma muito próximo do registo que teve durante a crise que teve na vida real. Durante os grandes planos na cara de Joaquin Phoenix é possível ver-se nos seus olhos uma ansiedade desconcertante que parece tão verdadeira que não se percebe se é Freddie Quell que a sente se o próprio Joaquin Phoenix. Também Amy Adams, apesar da sua personagem ser pouco explorada, é extremamente competente como Peggy Dodd a grande mulher por detrás do mestre.

No entanto o filme não é só feito de grandes interpretações e não se pode deixar de aplaudir o trabalho de Paul Thomas Anderson. Aqui num registo mais suave do que o estilo mais dramático e metafórico a que nos habituou, mas sempre mantendo a sua visão do cinema como uma sátira social. O trabalho de Anderson também tem se tornado mais pictórico e poético, algo que também é notório em The Master. Cada plano é especial, muito bem executado e transporta-nos facilmente para os anos 50.

The Master foi por muitos considerado um dos melhores filmes de 2012, mas estranhamente não conseguiu muitas nomeações para a 85.ºs edição dos Óscares. O filme de Paul Thomas Anderson não foi nomeado para Melhor Filme nem para Melhor Realizador e teve apenas 3 nomeações: Melhor Actor, Melhor Actor Secundário e Melhor Actriz Secundária. Visto que Joaquin Phoenix e Amy Adams não parecem ter hipótese nas suas categorias esperemos que pelo menos Philip Seymour Hoffman leve para casa o Óscar de Melhor Actor Secundário.

Também eu considero que The Master é um dos grandes filmes de 2012, apenas lamento que o deixe tanto em aberto. Gostaria de que Anderson tivesse deixado mais claro as implicações de pertencer à Causa e quais as suas crenças. O filme tem inúmeras questões que poderiam ser exploradas e que satisfariam a curiosidade do espectador, mas que de certa forma iriam eliminar a aura enigmática que The Master tem.

Corrida para os Óscares: Zero Dark Thirty

Zero Dark ThirtyA forma como Zero Dark Thirty foi aclamado pela crítica fazia prever muitas nomeações dos Óscares, facto que acabou por não se concretizar talvez pela polémica que o filme gerou. Ainda antes da estreia do filme veio-se a saber que Bigelow teve acesso a informações que não eram públicas e que estas lhe foram dadas por elementos da CIA e da Casa Branca. Tal polémica custou a Bigelow o Óscar de Melhor Realizadora, mas mesmo assim Zero Dark Thirty ainda conseguiu 5 nomeações, entre as quais a nomeação para Melhor Filme e Melhor Argumento Original.

Também Jessica Chastain foi nomeada para Melhor Actriz pelo seu desempenho em Zero Dark Thirty e apesar de não ter um desempenho brilhante demonstra a sua competência como actriz. Com o desenrolar do filme podemos ver Jessica Chastain a crescer no papel de Maya e a ganhar a frieza que o exercício da profissão desta exige. No entanto, apesar do seu bom desempenho, achei que o próprio argumento do filme não deixa que a actriz crie uma ligação com o público e não consegui sentir empatia com a sua personagem. Os americanos terão certamente mais facilidade em criar um laço com a personagem pois têm sentimentos muito mais fortes em relação à própria história.

As críticas mais negativas ao filme de Bigelow vêm consequentemente de fora dos Estados Unidos, onde muitos apontam que o filme glorifica a tortura. Contudo não partilho da mesma opinião mas achei que o filme serve de justificação para os actos praticados e para defender que apesar de tudo a captura do terrorista mais procurado de todos os tempos foi um feito heróico.

Confesso que assisti ao filme já com muitas reservas pois a temática não é particularmente interessante para mim, por isso, e pelo facto do filme só ficar mais emocionante nos últimos minutos do filme, achei-o terrivelmente aborrecido. Quando surge a sequência de acção que realmente desperta a curiosidade do espectador o filme já está sem fôlego e torna-se complicado recuperar o interesse quando já pouco ou nada nos prende ao ecrã.