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Corrida para os Óscares: 12 Years a Slave

12 Years a Slave

12 Years a Slave é mais um filme sobre a escravatura na América, mas é provavelmente um dos melhores de sempre. Depois do ousado Shame, Steve McQueen volta às longas metragens desta vez com uma grande produção. O mais recente filme do realizador britânico conta a história, quase inteiramente verídica, de Solomon Northrup, um negro livre que foi raptado e vendido como escravo no século XIX.

Interpretado pelo ator Chiwetel Ejiofor, Solomon vivia com a sua mulher e filhos em Saratoga Springs, Nova Iorque, e foi aliciado por dois homens com um emprego de duas semanas como violinista. Northup foi drogado pelos dois homens (Scoot McNairy e Taran Killam) e acordou acorrentado, prestes a ser vendido como escravo. Foi depois enviado para Nova Orleães onde lhe deram uma nova identidade e a partir desse momento deixou de ser Northup e passou a ser Platt, um escravo fugitivo da Geórgia. Primeiro foi vendido a Theophilus Freeman, um traficante de escravos (Paul Giamatti) que não tarda em vendê-lo novamente ao fazendeiro William Ford (Benedict Cumberbatch). Ford é um esclavagista (relativamente) benevolente e até lhe ofereceu um violino, no entanto devido a tensões com John Tibeats (Paul Dano)  Ford vê-se forçado a vender Northup a Edwin Epps (Michael Fassbender). Aqui começa realmente o martírio do homem livre tornado escravo.

Apesar de Northup já ter sofrido bastante principalmente nas mãos de Tibeats nada se compara com o terror físico e psicológico que sofre na plantação de Edwin Epps. O seu novo mestre é um homem de uma maldade atroz, que vagueia a toda a hora como um predador, procurando alguém para magoar e humilhar. Fassbender consegue ser assustadoramente credível no seu papel e mesmo nas cenas mais intensas não perde o olhar cruel, quase lunático.

‬Outra prestação de destaque é a de Lupita Nyong‭’‬o, que interpreta Patsey, uma escrava ‬pela‭ ‬qual a personagem de Fassbender tem uma obsessão desmedida. Ela é responsável por algumas das cenas mais arrebatadoras do filme. É impossível ficar indiferente à cena em que ela pede desesperadamente a Northup para lhe tirar a vida e acabar com o seu sofrimento, ou a cena em que é violentamente chicoteada por Epps.

A história de Solomon já por si é aterradora, mas não deixa de ser incrível a forma como McQueen consegue criar no espectador tamanha repulsa pelas provações pelas quais o personagem principal passa. O filme pode ser estilisticamente tradicional e em termos de estrutura narrativa é provavelmente o filme mais convencional e simples de McQueen. No entanto não deixa de ser, tal como os anteriores filmes do realizador, brutal e de uma beleza estética quase desconcertante. Algumas das suas escolhas de planos e composições são tão requintadas como as de uma obra de arte. Encontramos em 12 Years a Slave planos contemplativos, como por exemplo os quadros bucólicos de lagartas rastejando sobre os novelos de algodão ou as árvores refletidas num pântano à luz do pôr do sol, contrastando com cenas de violência, violação e enforcamento. É inegável a influência do background de McQueen, que começou a sua carreira como artista de vídeo experimental, nas suas escolhas como realizador.

Até ao momento Steve McQueen têm optado sempre por temas bastante polémicos e faz questão em todos eles de prolongar os planos mais dolorosos, de tal maneira que se torna impossível o espectador não sofrer também. O realizador, que conta com apenas três longas metragens no seu currículo, ganhou reputação através dos seus filmes mais independentes, nomeadamente através de Shame, que apesar de aclamado pela crítica acabou por ser ignorado nos galardões mais relevantes do cinema. Shame, que retrata o drama de um viciado em sexo, foi por muitos considerado a grande obra-prima de McQueen, principalmente pelo facto de nunca antes um realizador ter conseguido transmitir o sofrimento de um viciado. Para muitos este foi ultrapassado por 12 Years a Slave e provavelmente McQueen não será novamente ignorado pelos prémios da Academia.

Apesar de 12 Years a Slave ser um filme sobre um dos mais feios assuntos é inegável a sua beleza. No entanto, apesar de ter ficado provado que McQueen é um realizador manifestamente talentoso, considero que existem entre os nomeados para a maior parte das categorias para as quais 12 Years a Slave foi nomeado candidatos melhores. Para a categoria de Melhor Filme 12 Years a Slave é apontado como o grande favorito mas na minha opinião tanto Gravity como Dallas Buyers Club conseguem ultrapassá-lo: o primeiro pela inovação técnica e estilística que traz; ambos pela novelty dos enredos. O filme de McQueen é de certa forma penalizado por ter como base uma temática sobejamente explorada e apesar de ter sido muito bem abordada torna-se de certa forma cansativo ver ano após ano mais um filme sobre escravatura. Também não ajuda o facto de, em termos de interpretações, estarem nomeados filmes nos quais os atores têm performances fora de série e infelizmente em 12 Years a Slave os atores secundários acabam por ter mais força do que o próprio ator principal.

 

Título Original 12 Years a Slave
Título em Portugal 12 Anos Escravo
Realizadores Steve McQueen
Argumento John Ridley a partir do livro de Solomon Northup
Elenco Chiwetel Ejiofor, Michael Fassbender, Lupita Nyong’o, Benedict Cumberbatch
Nomeações Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Ator Secundário, Melhor Atriz Secundária, Melhor Realizador, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Direcção Artística, Melhor Edição e Melhor Argumento Adaptado
A Minha Pontuação 8/10

Corrida para os Óscares: Dallas Buyers Club

Dallas Buyers ClubSe ainda existiam dúvidas acerca do talento de Matthew McConaughey todas essas dúvidas se dissipam com Dallas Buyers Club. Ron Woodroof é provavelmente o papel da vida de McConaughey e a devoção dele a este papel é inegável. Para interpretar Ron Woodroof, o texano de 1,82 de altura perdeu 21 quilos, ficando com apenas 61 quilos e irreconhecível.

A personagem de McConaughey é baseada no verdadeiro Ron Woodroof, um eletricista heterossexual de Dallas que em 1985 descobriu que estava infetado com HIV. Como se vê no filme os médicos tinham lhe dado apenas 30 dias de vida, mas Woodroof recusou-se a aceitar esta sentença de morte.

Depois de passar a fase de negação e de aceitar que a doença não atinge apenas homossexuais, Woodroof começa a engendrar um plano para aumentar as suas hipóteses de sobrevivência. Primeiro tenta aceder ilegalmente aos novos tratamentos com AZT, mas ao perceber que os tratamentos não estavam a funcionar e que provavelmente não iria continuar a ter acesso à medicação procura um tratamento no México com uma medicação alternativa. É lá que tem a ideia de criar uma operação de tráfico dessa medicação não aprovada pela FDA. No filme Woodroof é uma espécie de Robin Hood que, apesar de não ser de graça, fornece aos pacientes com SIDA tratamentos alternativos que, se não faziam mais, pelo menos atenuavam a sintomatologia da doença.

Matthew McConaughey é exímio a encarnar Woodroof, que no início é um homem horrível, racista, homofóbico, ou seja, a pior versão de redneck texano possível. O que torna a personagem tão interessante é a maneira como um homem tão desagradável fundamentalmente impulsionado pelo egoísmo sofre uma mudança de postura após saber que a sua vida estava ameaçada. Com o desenrolar do filme as suas arestas vão sendo limadas naturalmente pelos acontecimentos e ele começa finalmente, à sua maneira, a aceitar a homosexualidade. De tal forma que até o seu braço direito no negócio de tráfico de medicamentos é um transexual chamado Rayon, interpretado por Jared Leto.

Jared Leto é incrível na sua interpretação, estando completamente à altura de McConaughey. Também ele passou por transformações físicas por causa deste papel, tendo perdido bastante peso e adotado a sua caracterização de transexual durante a duração das filmagens. No entanto são bem mais impressionantes as transformações comportamentais. Durante a duração do filme esquecemos-nos completamente do Jared Leto estrela de rock, adorado por milhões de raparigas pelo mundo fora. Durante 117 minutos acreditamos piamente que ele é Rayon: sensível, atencioso, gracioso e nunca perde o seu humor cáustico. Rayon é de tal maneira afável que até consegue conquistar o duro Woodroof e apesar deste não ter grandes manifestações e de trata-lo sempre como se fosse um homem é notório o carinho que ele discretamente sente por Rayon.

Ser abertamente transexual em Dallas, ou em qualquer parte dos Estados Unidos nos anos 80 devia ser terrível (com algumas exceções como talvez zonas de São Francisco e da baixa de Manhattan): enfrentar manifestações públicas de ódio, incompreensão, exclusão, etc. Jared Leto consegue mostrar como apesar da sua personagem ter um caráter forte e se sentir completamente realizado, tudo o que ele enfrentou a partir do momento em que assume a sua verdadeira essência deixou mazelas incuráveis. Ele é responsável por algumas das cenas mais enternecedoras do filme.

Talvez desde Philadelphia nenhum outro filme pegou na temática da SIDA e foi capaz de emocionar e despertar consciências. Dallas Buyers Club tem essa capacidade mas de uma maneira nova pois escolhe apresentar um anti-herói homofóbico que provavelmente fará com que até os espectadores com mais dificuldades em aceitar os chamados “estilos de vida alternativos” irão reconhecer que as posições dele são horríveis. Se até um homofóbico redneck pode deixar de ser tão preconceituoso, talvez haja esperança para os demais.

 

Título Original Dallas Buyers Club
Título em Portugal O Clube de Dallas
Realizadores Jean-Marc Vallée
Argumento Craig Borten e Melisa Wallack
Elenco Matthew McConaughey, Jennifer Garner, Jared Leto
Nomeações Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Ator Secundário, Melhor Edição, Melhor Caracterização e Melhor Argumento Original
A Minha Pontuação 9/10

Corrida para os Óscares: American Hustle

American HustleAmerican Hustle é um dos filmes com mais nomeações na 86.ºs edição dos prémios da Academia e é um sério candidato à vitória em muitas das categorias para as quais está nomeado. O filme de David O. Russel está nomeado para Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Secundário, Melhor Atriz Secundária, Melhor Realizador, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Direcção Artística, Melhor Edição e Melhor Argumento Original.

O enredo de Eric Warren Singer e David O. Russell foi inspirado num escândalo de corrupção que remonta aos anos 70, apelidado de Abscam. A operação consistiu numa emboscada que permitiu que vários políticos fossem apanhados a aceitar, em troca de vários favores políticos, subornos oferecidos por agentes do FBI disfarçados de Sheiks ricos.

No entanto a trama de American Hustle é bem mais interessante e glamorosa do que os eventos que a inspiraram. As personagens principais são um par de vigaristas, Irving Rosenfeld (Christian Bale) e Sydney Prosser (Amy Adams). Ele é dono de uma cadeia de lavandarias que aparentam fazer “lavagens” mais no sentido figurado do que no sentido de lavar roupa, e ainda paralelamente vende arte roubada/forjada e opera um negócio de empréstimos falsos para pessoas desesperadas e incapazes de conseguir empréstimos por vias legítimas. Ela é a amante de Irving e seu braço direito nos esquemas, adotando a persona de uma aristocrata inglesa, Lady Edith Greensly, glamorosa, sofisticada e com uma vasta rede de contactos com bancos britânicos. Ambos são coagidos pelo agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper) a participar num golpe para apanhar políticos corrompíveis, como foi o presidente da Câmara de Camden, New Jersey, Carmine Polito (Jeremy Renner).

A performance de Christian Bale é magistral. O ator não se limitou a encarnar as características psicológicas do personagem como também se submeteu a mais uma transformação física incrível. Para representar Irving Bale engordou cerca de 18 quilos, ganhou a barriga típica de um apreciador fervoroso de cerveja e adotou um penteado medonho que prima pela escassez de cabelo conjugada com a utilização de um capachinho de qualidade duvidosa. O excesso de peso e a calvície associados aos melhores e mais pirosos fatos de poliéster dos anos 70 tornam a personagem de Bale deliciosamente foleira.

Irving é casado com Rosalyn, uma mãe solteira, carente, passivo-agressiva e ligeiramente neurótica cujo filho Irving tomou sob a sua asa. A personagem de Jennifer Lawrence é deliciosamente irritante e é um prazer vê-la ter um desempenho tão bom mesmo que num papel tão curto em tempo no ecrã. Em American Hustle Jennifer Lawrence demonstra que realmente tem talento para a comédia e conquista completamente o espectador com a sua personagem brega-chic, de bronzeado falso, cabelo cheio de laca e unhas postiças.

A parceira e verdadeira alma gémea de Irving também parece ter sido escolhida a dedo para o papel. Com o seu ar de boneca de porcelana Amy Adams representa uma mulher de origens humildes, que outrora foi stripper, mas que por ser inteligente e determinada conseguiu dar a volta à sua vida e fingir ser uma mulher glamorosa e sensual. Contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que não tem um decote até o umbigo, mas este visual é vital para os esquemas que tem com Irving. Amy Adams tem um papel mais apelativo e mais fácil cativar a empatia do público, mas menos interessante e visceral do que o de Jennifer Lawrence.

Bradley Cooper, apesar de ser uma das personagens vitais para a história é menos interessante ainda e é possível imaginar mil e um atores que conseguiriam fazer mais e talvez melhor com este papel. O agente Richie DiMaso parece-se em demasia com John Travolta em “Saturday Night Fever” e esta aparência física é algo desconcertante num agente do FBI.

Outra personagem que vale a pena destacar é Carmine Polito o presidente da câmara de Camden, interpretado por Jeremy Renner. Ele é um dos políticos apanhados na operação Abscam e foi grosseiramente inspirado em Angelo Errichetti, antigo presidente da câmara de Camden e um dos políticos envolvidos no verdadeiro Abscam. Renner é excelente ao nos passar a ideia de que a sua personagem não é verdadeiramente má nem boa, é apenas um político dedicado à sua cidade, um homem de família, e que vê a corrupção como um mal necessário para alcançar um equilíbrio numa cidade de tão grandes extremos.

É impossível falar de American Hustle e não destacar a sua magnifica banda sonora totalmente inesperada para um filme sobre criminalidade e política. Apesar de talvez não parecer que uma banda sonora que vai de Duke Ellington e Frank Sinatra a Chicago e Donna Summer combine com este enredo, mas tudo encaixa na perfeição e a energia das cenas foi empolada graças a esta integração perfeita de todos os elementos que compõem o filme. São pequenos pormenores como o facto de em algumas cenas as personagem murmurarem silenciosamente a letra da música que estamos a ouvir, fazendo com que sintamos que estamos a ouvir o que vai dentro das suas cabeças, que tornam o filme de Russel tão harmonioso.

Tanto American Hustle como The Wolf of Wall Street têm semelhanças inegáveis com o clássico de Martin Scorsese, GoodFellas. O uso da narração e da música pop são algumas das características do realizador ítalo-americano que estão patentes em ambos os filmes. No entanto American Hustle presta uma melhor homenagem a Goodfellas do que o próprio filme de Martin Scorsese. Uma das características que faz com que American Hustle seja mais interessante do que The Wolf of Wall Street, e que é também uma característica de Goodfellas, é o facto de o espectador conseguir ter grande empatia com algumas personagens. Isto deve-se ao facto de, apesar de serem vigaristas, aquelas personagens têm a sua história, inseguranças, falhas que justificam as suas ações e que as tornam humanas. Irving adota o filho de Rosalyn , Sydney quer ultrapassar o seu passado menos bom, até a personalidade ligeiramente irritante de Rosalyn parece ser fruto de um passado que a transformou numa pessoa que necessita de artifícios para encobrir a sua insegurança.

 

Título Original American Hustle
Título em Portugal Golpada Americana
Realizadores David O. Russell
Argumento Eric Warren Singer e David O. Russell
Elenco Christian Bale, Amy Adams, Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Jeremy Renner
Nomeações Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Secundário, Melhor Atriz Secundária, Melhor Realizador, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Direcção Artística, Melhor Edição e Melhor Argumento Original
A Minha Pontuação 8/10