Madeira: Depois da tempestade trabalha-se para que venha a bonança

No sábado passado, dia 20 de Fevereiro, a ilha da Madeira foi alvo de um aluvião excepcional. Segundo os historiadores esta foi a maior tragédia ocorrida nos últimos 100 anos na Madeira, ultrapassando o número de vida humanas perdidas e os prejuízos materiais do temporal de 1993 e do desabamento de terras de 1929, em São Vicente.

Em cinco horas caíram sobre o Funchal 111 milímetros de precipitação e 165 milímetros no Pico do Areeiro. Mas as consequências nefastas do temporal que assolou a ilha não se devem apenas à chuva que caiu durante essa madrugada e manhã. A chuva que caiu durante todo o Inverno contribuiu para aumentar o risco de derrocada, pois tornou os terrenos instáveis e ensopados.

Muitos afirmam que o agravamento das consequências da intempérie deveu-se ao estreitamento das ribeiras, à sua cobertura e às construções feitas nas suas margens. Quanto a isso o coordenador do Ministério Público na Madeira, Gonçalves Pereira, já anunciou que poderão ser responsabilizados alguns casos de “ordenamento mal feito”. Os ambientalistas apontam que a solução para que uma catástrofe destas não volte a acontecer é alargar os leitos das ribeiras, não construir nas suas margens e, segundo o geógrafo Raimundo Quintal, “mais Laurissilva significará menor risco de aluvião”.

No entanto a cobertura e estreitamento das ribeiras da Madeira não é um fenómeno recente, nem foi iniciado pelo actual presidente da Região Autónoma da Madeira, como muitos crêem. Na verdade, a Ribeira de São João, que rebentou à frente do Centro Comercial Dolce Vita, foi coberta nos anos 40 para que fosse construída a Rotunda do Infante. E as pontes que foram destruídas são de muito antes da Autonomia.

É importante realçar que, desde o temporal de 1993, as ribeiras têm sido limpas todos os anos e que as ribeiras normalmente não atingem nem metade da altura que atingiram durante o aluvião.

A limpeza do Funchal e a importância do turismo

Independentemente das questões que se possam levantar à cerca das consequências do temporal, a cidade do Funchal está a ser limpa a uma velocidade incrível e a eficácia das equipas envolvidas neste processo é impressionante. Os trabalhos de limpeza na baixa do Funchal prosseguem e uma das principais zonas turísticas da cidade, a Avenida Arriaga, já está completamente limpa e as lojas e cafés dessa avenida já estão em funcionamento. Muitos madeirenses juntaram-se aos funcionários do Governo Regional, arregaçaram as mangas e foram limpar as ruas da sua cidade. Foram mobilizadas 110 máquinas e 250 camiões para os trabalhos de limpeza das ribeiras e estradas em toda a ilha.

O objectivo principal da Câmara Municipal do Funchal é ter as limpezas concluídas este fim-de-semana, a tempo de receber os 4.500 passageiros de dois navios de cruzeiro que atracarão amanhã no porto do Funchal. Serão os primeiros a pisar o porto depois do temporal de sábado.

A grande preocupação com o turismo foi mal interpretada por algumas pessoas que, por razões políticas ou por não conhecerem a realidade da Madeira, acham que é uma questão sem importância. Mas é necessário relembrar que muitas das pessoas afectadas pelo temporal vivem de sectores ligados ao turismo. Portanto se os turistas deixarem de se deslocar para a Madeira, com medo de fenómenos meteorológicos como o da semana passada, para além da falta de casas, estabelecimentos comerciais e acessos arriscamos-nos a ter muitas dessas pessoas também sem emprego.

Os empresários do sector hoteleiro já manifestaram a sua preocupação com os cancelamentos de viagens, que estão a acontecer apesar da maioria dos operadores turísticos não estar a devolver o dinheiro dos bilhetes. Segundo António Trindade, um hoteleiro da ilha, é preciso “sermos particularmente agressivos com os nossos possíveis clientes”, seja “ao nível de preços ou de marketing”. Vários empresários do sector apelaram à redução das taxas aeroportuárias.

Apesar da destruição, os turistas que optaram por manter os seus planos de férias demonstraram estar satisfeitos e aplaudiram a celeridade com que as ruas estão a ser limpas. Alguns turistas revelaram aos meios de comunicação social portugueses que receberam telefonemas da família encorajando-os a regressar a casa e afirmaram que quando se vê este tipo de notícias pela televisão tudo parece muito pior. “Não é que as televisões mintam, mas ninguém imagina que aqui, no hotel, se está em perfeita segurança, sem dar por nada”, revelou um turista.

Para satisfazer os turistas que querem fazer as habituais excurssões o governo criou “circuitos alternativos, em colaboração com os agentes turísticos”, longe das zonas problemáticas.

A reconstrução

Alberto João Jardim afirma que em 2 anos conseguirá reconstruir as zonas afectadas pelo aluvião do passado sábado, no entanto alguns especialistas afirmam que poderá demorar uma década se essa
reconstrução for executada com o intuito de prevenir os estragos de futuras intempéries.

Os prejuízos são avultados, podendo ultrapassar os mil milhões de euros que foram previstos nesta primeira avaliação dos estragos. Este levantamento preliminar demonstrou que os prejuízos incluem 100 quilómetros de estadas, 500 viaturas, 60 habitações e centenas de equipamentos.

A polémica à volta do número de mortos

Surgiu nos últimos dias uma polémica com os números apresentados pelo presidente do Governo Regional, pelo facto do número de mortos anunciado na segunda-feira ter se mantido, mesmo depois de terem sido encontrados mais corpos. Mais tarde fontes oficiais vieram esclarecer que o número de mortos anunciado anteriormente era uma estimativa, porque existiam corpos que ainda faltava resgatar de locais sinalizados. No entanto esta situação causou um grande alvoroço, por causa de haverem também algumas informações contraditórias veiculadas por supostas testemunhas oculares.

A primeira semente da discórdia foi semeada por Tatiana Abreu, que disse à Lusa ter visto, de uma varanda situada num prédio de onde é visível o Anadia Shopping, seis corpos serem transportados por polícias e depositados numa viatura da PSP de caixa fechada, na manhã de segunda-feira. Segundo Tatiana “os cadáveres vinham embrulhados em plástico branco ou lençóis, mas enlameados”. No entanto a Protecção Civil afirma que foram encontrados apenas três automóveis e que não foram encontrados corpos.

Depois surgiu um rumor de que haviam mais corpos no necrotério improvisado por debaixo da pista do aeroporto de Santa Catarina. Algumas pessoas afirmavam que tinham “um tio bombeiro” que levou um corpo para o necrotério e que tinha visto que a etiqueta que tinha sido colocada no corpo tinha o número 90 e tal. Mais tarde também alguns familiares de vítimas do temporal afirmaram que o corpo do seu familiar tinha um número a cima do 90. Finalmente na quinta-feira a professora Cristina Mendonça, que chefia a equipa do Instituto Nacional de Medicina Legal e que está a proceder às autópsias em parceria com o Gabinete Médico-Legal do Funchal (GML), explicou que a autópsia da primeira vítima do temporal teve o número 64 porque era esse o número sequencial dos processos tramitados pelo GML do Funchal desde o dia 1 de Janeiro de 2010. Assim sendo, quando a primeira vítima da enxurrada foi levada para a morgue improvisada a equipa de médicos legistas não começaram a contar do 1 e em vez disso continuaram a contagem sequencial, que não é utilizada apenas de autópsias mas também para outras perícias médico-legais.

O grande problema destes rumores é o impacto que poderão ter nas pessoas que ainda têm familiares desaparecidos. E o problema pode tornar-se maior se esses familiares não chegarem a ser encontrados e se isto acontecer as famílias ficarão eternamente na dúvida.

Impressionou-me a quantidade de pessoas que, na Internet, alimentaram a polémica com estes rumores, nomeadamente nos comentários aos artigos do Publico.pt, servindo-se da possibilidade de anonimato para esconder a sua identidade. Afirmavam que existia um grande esquema que visava proteger a imagem da Madeira no estrangeiro, como se fosse possível esconder os corpos das vítimas, ou então proferiam frases contra os madeirenses repletas de ódio. Cito aqui apenas alguns exemplos:

“O problema é que é de uma triszteza profunda verem-se pessoas a serem retiradas do estacionamento do Anadia por uma porta e da outra estar o sr presidente da câmara a dizer que dali não tiraram nem um único cadáver!”

“É inacreditável. Já agora, nalgumas semanas, morrem 20 pessoas em Portugal, só em acidentes de viação. Em grande parte deles, morrem pessoas completamente inocentes, cujo único “pecado” foi estarem no local errado, à hora errada. Que tal constituir-se um fundo de solidariedade para as respectivas famílias também? Sim, venham daí as “carpideiras” protestar. Mas, numa altura em que toda a gente aperta o cinto, e quando se fala que o défice dalguns países pode demorar 20 anos a normalizar, custa-me um pouco ler a facilidade com que se estende a mão – passando por cima de factos, e.g. número de mortos – para se ir buscar mais umas centenas de milhões de subsídio. Tenho muita pena. Mas, se um dia me cai uma árvore em cima do telhado e me parte a casa toda, se eu não tiver seguro contra catástrofes naturais (sim, existem), não me parece que venha uma onda de solidariedade a correr para ajudar.”

“Fim de Ano, Carnaval F Flor é só FESTA e os “cubanos” que paguem!!… só há dinheiro para as festas”

Mobilização para ajudar a Madeira

Ajudar os madeirenses

As pessoas podem contribuir com dinheiro através de várias contas de apoio ou das linhas telefónicas cujas receitas revertem para a Madeira. A Cáritas Diocesana do Funchal tem sido a instituição mais se tem destacado no apoio às vitimas do temporal e está a pedir alimentos, mobília e têxteis para a casa. Para além dos bens materiais, a Cáritas também precisa de voluntários pois vai estender a sua área de actuação ao resto da ilha.

Se preferirem também podem participar no apoio às vítimas do aluvião de 20 de Fevereiro com alimentos, vestuário, material escolar ou outros bens de primeira necessidade através da Caixa Solidária dos CTT. Basta dirigir-se a uma Estação de Correios, pedir a caixa solidária grátis, colocar lá os bens que pretende doar e colocar a palavra “MADEIRA” como destinatário.

Ajudar a cultura

A exposição “Obras de Referência dos Museus da Madeira”, que está desde o dia 21 de Novembro de 2009 no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, vai estar aberta ao público por mais um mês com o intuito de angariar verbas para a recuperação do Museu do Açúcar. Este museu, que se situa na Praça Colombo, ficou danificado por causa do temporal e os prejuízos só não foram maiores porque onze das peças do Museu do Açúcar se encontram no Palácio Nacional da Ajuda. O Ministério da Cultura explica irá assumir os custos inerentes a este prolongamento.

O bilhete para visitar a exposição custa 4 euros, tendo desconto para maiores de 65 anos e Jovens dos 15-25 anos (2 euros) e sendo gratuito para crianças até aos 14 anos e pessoas com deficiência.
Mais informações podem ser encontradas aqui.

Ajudar os animais

Os desastres naturais costumam deixar os animais domésticos desamparados e este temporal não foge à regra. A Sociedade Protectora dos Animais Domésticos (SPAD) do Funchal está a acolher animais que se encontrem perdidos ou abandonados e pede a quem os encontrar que os levem até às suas instalações na Rua do Matadouro, 10 A. Infelizmente as suas instalações estão a ficar sobrelotadas porque vários animais estão a ser entregues.

As pessoas podem ajudar a SPAD do Funchal com donativos, com alimentação para os animais, adoptando um animal ou sendo uma família de acolhimento temporário. Mais informações podem ser encontradas aqui.

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