Corrida para os Óscares: American Hustle

American HustleAmerican Hustle é um dos filmes com mais nomeações na 86.ºs edição dos prémios da Academia e é um sério candidato à vitória em muitas das categorias para as quais está nomeado. O filme de David O. Russel está nomeado para Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Secundário, Melhor Atriz Secundária, Melhor Realizador, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Direcção Artística, Melhor Edição e Melhor Argumento Original.

O enredo de Eric Warren Singer e David O. Russell foi inspirado num escândalo de corrupção que remonta aos anos 70, apelidado de Abscam. A operação consistiu numa emboscada que permitiu que vários políticos fossem apanhados a aceitar, em troca de vários favores políticos, subornos oferecidos por agentes do FBI disfarçados de Sheiks ricos.

No entanto a trama de American Hustle é bem mais interessante e glamorosa do que os eventos que a inspiraram. As personagens principais são um par de vigaristas, Irving Rosenfeld (Christian Bale) e Sydney Prosser (Amy Adams). Ele é dono de uma cadeia de lavandarias que aparentam fazer “lavagens” mais no sentido figurado do que no sentido de lavar roupa, e ainda paralelamente vende arte roubada/forjada e opera um negócio de empréstimos falsos para pessoas desesperadas e incapazes de conseguir empréstimos por vias legítimas. Ela é a amante de Irving e seu braço direito nos esquemas, adotando a persona de uma aristocrata inglesa, Lady Edith Greensly, glamorosa, sofisticada e com uma vasta rede de contactos com bancos britânicos. Ambos são coagidos pelo agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper) a participar num golpe para apanhar políticos corrompíveis, como foi o presidente da Câmara de Camden, New Jersey, Carmine Polito (Jeremy Renner).

A performance de Christian Bale é magistral. O ator não se limitou a encarnar as características psicológicas do personagem como também se submeteu a mais uma transformação física incrível. Para representar Irving Bale engordou cerca de 18 quilos, ganhou a barriga típica de um apreciador fervoroso de cerveja e adotou um penteado medonho que prima pela escassez de cabelo conjugada com a utilização de um capachinho de qualidade duvidosa. O excesso de peso e a calvície associados aos melhores e mais pirosos fatos de poliéster dos anos 70 tornam a personagem de Bale deliciosamente foleira.

Irving é casado com Rosalyn, uma mãe solteira, carente, passivo-agressiva e ligeiramente neurótica cujo filho Irving tomou sob a sua asa. A personagem de Jennifer Lawrence é deliciosamente irritante e é um prazer vê-la ter um desempenho tão bom mesmo que num papel tão curto em tempo no ecrã. Em American Hustle Jennifer Lawrence demonstra que realmente tem talento para a comédia e conquista completamente o espectador com a sua personagem brega-chic, de bronzeado falso, cabelo cheio de laca e unhas postiças.

A parceira e verdadeira alma gémea de Irving também parece ter sido escolhida a dedo para o papel. Com o seu ar de boneca de porcelana Amy Adams representa uma mulher de origens humildes, que outrora foi stripper, mas que por ser inteligente e determinada conseguiu dar a volta à sua vida e fingir ser uma mulher glamorosa e sensual. Contam-se pelos dedos de uma mão as vezes que não tem um decote até o umbigo, mas este visual é vital para os esquemas que tem com Irving. Amy Adams tem um papel mais apelativo e mais fácil cativar a empatia do público, mas menos interessante e visceral do que o de Jennifer Lawrence.

Bradley Cooper, apesar de ser uma das personagens vitais para a história é menos interessante ainda e é possível imaginar mil e um atores que conseguiriam fazer mais e talvez melhor com este papel. O agente Richie DiMaso parece-se em demasia com John Travolta em “Saturday Night Fever” e esta aparência física é algo desconcertante num agente do FBI.

Outra personagem que vale a pena destacar é Carmine Polito o presidente da câmara de Camden, interpretado por Jeremy Renner. Ele é um dos políticos apanhados na operação Abscam e foi grosseiramente inspirado em Angelo Errichetti, antigo presidente da câmara de Camden e um dos políticos envolvidos no verdadeiro Abscam. Renner é excelente ao nos passar a ideia de que a sua personagem não é verdadeiramente má nem boa, é apenas um político dedicado à sua cidade, um homem de família, e que vê a corrupção como um mal necessário para alcançar um equilíbrio numa cidade de tão grandes extremos.

É impossível falar de American Hustle e não destacar a sua magnifica banda sonora totalmente inesperada para um filme sobre criminalidade e política. Apesar de talvez não parecer que uma banda sonora que vai de Duke Ellington e Frank Sinatra a Chicago e Donna Summer combine com este enredo, mas tudo encaixa na perfeição e a energia das cenas foi empolada graças a esta integração perfeita de todos os elementos que compõem o filme. São pequenos pormenores como o facto de em algumas cenas as personagem murmurarem silenciosamente a letra da música que estamos a ouvir, fazendo com que sintamos que estamos a ouvir o que vai dentro das suas cabeças, que tornam o filme de Russel tão harmonioso.

Tanto American Hustle como The Wolf of Wall Street têm semelhanças inegáveis com o clássico de Martin Scorsese, GoodFellas. O uso da narração e da música pop são algumas das características do realizador ítalo-americano que estão patentes em ambos os filmes. No entanto American Hustle presta uma melhor homenagem a Goodfellas do que o próprio filme de Martin Scorsese. Uma das características que faz com que American Hustle seja mais interessante do que The Wolf of Wall Street, e que é também uma característica de Goodfellas, é o facto de o espectador conseguir ter grande empatia com algumas personagens. Isto deve-se ao facto de, apesar de serem vigaristas, aquelas personagens têm a sua história, inseguranças, falhas que justificam as suas ações e que as tornam humanas. Irving adota o filho de Rosalyn , Sydney quer ultrapassar o seu passado menos bom, até a personalidade ligeiramente irritante de Rosalyn parece ser fruto de um passado que a transformou numa pessoa que necessita de artifícios para encobrir a sua insegurança.

 

Título Original American Hustle
Título em Portugal Golpada Americana
Realizadores David O. Russell
Argumento Eric Warren Singer e David O. Russell
Elenco Christian Bale, Amy Adams, Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Jeremy Renner
Nomeações Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Ator Secundário, Melhor Atriz Secundária, Melhor Realizador, Melhor Guarda-Roupa, Melhor Direcção Artística, Melhor Edição e Melhor Argumento Original
A Minha Pontuação 8/10

Corrida para os Óscares: Frozen

FrozenQuem conhece o musical Wicked lembra-se com certeza do momento épico em que Elphaba ergue-se no ar a cantar Defying Gravity. Quem conhece o musical Wicked consegue ver as semelhanças entre este e o mais recente filme de animação da Disney — Frozen — inspirado no famoso conto The Snow Queen de Hans Christian Andersen.

Não é o simples facto de ter sido Idina Menzel a protagonizar esse momento épico do teatro musical e a dar voz a uma das personagens principais de Frozen, nem o facto da atriz ter novamente dado voz a uma canção (Let It Go) que ficará na memória dos fãs de musicais. Frozen é muito parecido com o Wicked em termos de estilo, na forma como as músicas surgem naturalmente integradas na narrativa e na grandiosidade da interpretação de alguns temas que com certeza se tornarão clássicos.

Todos os atores que deram voz às personagens de Frozen fizeram um excelente trabalho. Destacam-se no entanto Kristen Bell, que surpreendeu bastante com as suas qualidades vocais, e Idina Menzel, que conseguiu dar uma magia especial às músicas que interpretou.

Kristen Bell e Idina Menzel são Anna e Elsa respetivamente, duas princesas, irmãs que se afastam porque Elsa nasceu amaldiçoada e congela tudo o que toca. O mais recente filme de animação da Disney é provavelmente a única história de princesas da Disney em que o tema não é o amor entre o príncipe e a princesa mas sim entre duas irmãs, que apesar das adversidades não deixam de gostar uma da outra. Para além disso passa a mensagem de que é preciso aceitarmo-nos como somos e não ceder à pressão da conformidade.

Frozen é sensacional não só pela qualidade da história e das músicas mas também pelas inovações técnicas que trouxe. Foi graças à investigação que a Disney e a UCLA levaram a cabo que pela primeira vez num filme de animação temos uma simulação quase perfeita de neve, por exemplo. Por incrível que possa parecer a neve é ​​um fenómeno natural bastante difícil de simular, especialmente a interação com esta. Também a forma como as personagens foram animadas é impressionante e mais do que nunca as personagens parecem ganhar vida e comportar-se como se fossem humanas.

O filme da Disney está nomeado para os Óscares de Melhor Filme de Animação e Melhor Canção Original mas apenas na primeira tem fortes hipóteses de receber o Óscar. Espero também que Frozen não seja esquecido nos Prémios Científicos e Técnicos da Academia.

 

Título Original Frozen
Título em Portugal Frozen – O Reino do Gelo
Realizadores Chris Buck, Jennifer Lee
Argumento Jennifer Lee
Elenco Kristen Bell, Idina Menzel Idina Menzel, Jonathan Groff, Josh Gad, Santino Fontana
Nomeações Melhor Filme de Animação e Melhor Canção Original
A Minha Pontuação 10/10

Corrida para os Óscares: The Wolf of Wall Street

The Wolf of Wall StreetNo ano em que as histórias sobre vigaristas fazem furor em quase todos os prémios do cinema, The Wolf of Wall Street é sem dúvida o mais polémico dos nomeados. O mais recente filme de Martin Scorsese retrata a história de Jordan Belfort, um jovem corretor da bolsa que enriquece através do negócio das ações de baixo valor, fraudes de investimento e lavagem de dinheiro.

The Wolf of Wall Street é o filme mais longo da carreira de Martin Scorsese, mas para que valha a pena investir três horas num filme sobre um corretor da bolsa corrupto seria preciso que o filme fosse muito mais do que glamoroso e esporadicamente divertido. O problema do filme de Scorsese não é, como muitos apontam, o excesso de álcool, sexo e drogas, é sim o facto de acabar por ser redundante e essencialmente aborrecido.

Parece que Scorsese e o argumentista Terence Winter pensaram que a maneira de mostrar a vida de excessos de Belfort era serem também eles excessivos. Mas de quantas cenas de bacanal necessita o espectador para perceber como era a vida de Belfort? E quanto tempo têm de durar estas cenas?

Muitas das sequências deveriam claramente ter sido cortadas na edição pois alongam-se tanto que o espectador perde o interesse. O exemplo mais flagrante é uma sequência em que Donnie Azoff, a personagem de Jonah Hill, e Brad (Jon Bernthal) estão numa rua a discutir com uma mala cheia de dinheiro entre eles. A cena é tão longa que no ponto alto da mesma, quando Brad é apanhado pela polícia, nem nos conseguimos recordar o porquê da discussão, de onde aparecem os polícias e o que é aquele dinheiro.

Outra cena demasiado longa é a sequência em que Jordan, completamente drogado, rasteja até o seu carro desportivo estacionado à porta do country club. Tendo em conta que fomos bombardeados durante todo o filme com cenas de abuso de estupefacientes esta cena de humor negro tinha todo o potencial para ser o símbolo máximo da decadência da vida de Belfort. No entanto perde toda a sua força pelo facto de se arrastar demasiado e acaba por deixar o público esgotado e irritado.

Todos os minutos a mais vão acumulando de tal forma que até os momentos vibrantes do filme se tornam monótonos. Apesar de ser divertido ver DiCaprio a representar as cenas em que Belfort estava sob o efeito de Quaaludes ou nos seus discursos acalorados para a sua matilha de corretores da bolsa, tudo isto se torna também tristemente previsível e longo.

Mas enganam-se os que pensam que os atores são responsáveis pelos fracassos do filme. DiCaprio tem uma performance incrível, muito provocadora, destemida e exuberante. Talvez esta não seja suficiente para que mereça o Óscar de Melhor Ator, no entanto justifica claramente a sua nomeação. Também Jonah Hill tem um excelente desempenho no papel de melhor amigo de Belford e apesar de não ter grandes hipóteses de receber o Óscar para Melhor Ator Secundário a nomeação (pela segunda vez) é uma grande vitória para o comediante.

A atriz Margot Robbie, que interpreta a mulher-troféu de Belford, fez o que conseguiu com o seu papel pouco desenvolvido e mesmo assim conseguiu brilhar em algumas cenas. A sequência em que ela se humilha perante o marido em frente do berço do bebé tinha imenso potencial, mas como Scorsese não desenvolveu a relação entre ela e o marido ficou a ser apenas mais uma cena de sexo.

Entre planos mal conseguidos e más escolhas de edição (a não nomeação para a categoria de Edição nos Óscares não foi uma surpresa) o filme ainda poderia ter sido salvo pela performance dos atores, no entanto nenhuma das personagens, com excepção de Belfort, foi suficientemente desenvolvida para que o espectador pudesse relacionar-se com o filme. O filme acaba por não conseguir cativar o interesse nem pelas personagens nem pela temática, que também foi pobremente abordada e assim The Wolf of Wall Street acaba por ser apenas um Goodfellas mediano, demasiado longo, feito à pressa e sem atenção ao detalhe.

 

Título Original The Wolf of Wall Street
Título em Portugal O Lobo de Wall Street
Realizadores Martin Scorsese
Argumento Terence Winter a partir do livro de Jordan Belfort
Elenco Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Rob Reiner, Jean Dujardin, Kyle Chandler
Nomeações Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Ator Secundário, Melhor Realizador e Melhor Argumento Adaptado
A Minha Pontuação 7/10