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Rir é o melhor remédio

onvVestem bata branca e chamam-lhes doutores, mas as consultas que dão são bem diferentes. Todas as semanas, às segundas e quintas, os Doutores Palhaços da Operação Nariz Vermelho (ONV) vão ao Instituto Português de Oncologia de Lisboa dar toda a sua alegria às crianças que ali se encontram internadas. Porque rir é o melhor remédio, quando administrado na dose certa.

Os Doutores Palhaços não são palhaços comuns: usam pouca maquilhagem, não usam roupas demasiado garridas e não fazem muito barulho, diz Beatriz Quintela, Directora Artística e Presidente da Operação Nariz Vermelho. “O Dr. Palhaço é simplesmente um palhaço que aprendeu a funcionar dentro de um hospital, com as regras de um hospital.”

“O hospital influencia o tamanho da nossa acção e a intensidade da nossa performance. Ela fica pequenina do tamanho de um quarto.”, diz Beatriz, também é conhecida por Dra. Da Graça. Os Doutores Palhaços da ONV adaptam todos os truques de magia, as brincadeiras, cantigas e piadas característicos dos palhaços ao local onde estão. Os artistas também têm de respeitar determinadas regras que dizem respeito à higiene: durante a sua actuação, lavam e desinfectam as mãos várias vezes para não passarem micróbios às crianças.

Dra. Valentina Valentona e Dr. Bambu, cujos nomes reais são respectivamente Anabela Mira e João Paulo Reis, são os palhaços que actualmente visitam o IPO. O Dr. Bambu já está no IPO há 6 meses, apesar de, normalmente, as duplas trocarem de três em três meses, “para dar uma certa frescura”. A Dra. Valentina Valentona está no IPO há apenas um mês.

Os Doutores Palhaços chegam cedo ao hospital pois, antes de actuarem para as crianças, ainda têm de se preparar. Na verdade, segundo Anabela Mira, a preparação começa na noite anterior com uma boa noite de sono. “O nosso dia começa por volta das 8.30, a tomar um cafezinho e um bom pequeno almoço, porque a manhã é muito intensa. Em geral, são sempre ali duas horas seguidas e é importante termos energia”. Depois encontram-se às 10 da manhã para vestirem as suas roupas de Doutores Palhaços e fazerem um aquecimento. “Nós temos um espaço pequenino na pediatria, com um cacifo onde guardamos as nossas coisas e vestimos as nossas roupas de palhaços. Maquilhamos-nos (não muito!) e fazemos um aquecimento de corpo e de voz, de canção, de música”, revela João Paulo.

Uma característica importante do trabalho dos Doutores Palhaços é o facto de articularem o seu trabalho com o dos profissionais de saúde. Segundo a Dra. Valentina Valentona existe uma grande cumplicidade entre os Doutores Palhaços e os médicos, enfermeiros e auxiliares de acção médica. Esta parceria é vital para que ninguém atrapalhe ninguém. Maria de Lurdes Madureira, Educadora de Infância do IPO, confessa que por vezes se sente tentada a entrar na brincadeira e intromete-se no trabalho dos Doutores Palhaços. “Faço isso principalmente com a Bia que conheço desde que ela começou a vir ao IPO, fazemos uma dupla.” Segundo a educadora, os Doutores Palhaços são muito queridos “não só profissionalmente como também humanamente”.

Antes de começarem a sua actuação, os artistas fazem com os enfermeiros o que chamam de “transmissão”, ou seja, discutem que crianças podem ou não visitar e fazem uma lista com os nomes, idades e quartos das crianças que podem visitar. “Existem crianças que estão no isolamento e não podemos entrar. Há certas regras que precisamos de saber para fazermos o nosso trabalho e não prejudicarmos os tratamentos médicos.”

Para as crianças que estão nos isolamentos os Doutores Palhaços têm de fazer actuações especiais. Como não podem entrar no quarto recorrem à mímica e à imagem para conseguirem ultrapassar a barreira que o vidro da porta do quarto representa, e assim animar a criança que está isolada. Aparecem e desaparecem na janela da porta para provocar a gargalhada e por vezes também usam sons, mas “o vidro corta muito o som e por isso preferimos trabalhar mais com a imagem”, acrescenta João Paulo. Fazem muitos jogos clássicos de palhaços como, por exemplo, um atrapalhar o outro.

“Normalmente as crianças reagem muito bem, embora haja algumas crianças que têm medo quando vêem pela primeira vez um palhaço, mas depois há sempre uma conquista”. Os artistas sabem que as crianças entre dois e cinco anos de idade provavelmente têm medo de palhaços e não forçam quando encontram uma criança que demonstra ter medo. “Muitas vezes na semana a seguir, voltamos a encontrar essa criança e ela já está um bocadinho mais receptiva e assim a pouco e pouco conseguimos conquistá-la. E essa conquista é uma das coisa que nos dá muito prazer”, confessa o Dr. Bambu.

Muitas vezes, os Doutores Palhaços também estão presentes quando são aplicadas terapêuticas para aliviar os tratamentos que possam ser mais dolorosos ou causar desconforto na criança. Tentam distrair a criança enquanto a enfermeira dá uma injecção ou muda um penso. Trabalham à volta dos profissionais de saúde sem os perturbar e às vezes até são eles que querem entrar na brincadeira.

Uma médica entra no quarto, enquanto a Dra. Valentina Valentona e o Dr. Bambu alegram uma criança que está no colo da mãe. A Dra. Valentina Valentona abraça a médica: “Isto é uma ajunta médica!”. “Há pessoas um bocadinho mais abertas e há pessoas que são mais fechadas, mas no geral há boa cumplicidade”, conta Anabela.

E não são só as crianças que os Doutores Palhaços conseguem animar, também os pais, as visitas e outras pessoas que passam pelo IPO são inundados por esta energia positiva. No caminho até à Pediatria o Dr. Bambu e a Dra. Valentina Valentona cantam “o mar mar enrola na areia, ninguém sabe o que ele diz, bate na areia e desmaia porque se sente feliz”, dançam e metem-se com as pessoas que passam nos corredores.

As crianças que já os conhecem brincam com eles e os pais ficam radiantes por verem a alegria dos filhos. “Eles apoiam-nos porque é para o bem da criança e outras vezes são os próprios que aproveitam a nossa presença para se divertirem um pouco, para passarem a outra coisa que não o quarto do hospital”, revela Anabela.

No início, alguns pais não se sentiam muito à vontade com o trabalho dos Doutores Palhaços. “Os pais têm uma reacção dessas porque têm uma dor muito grande pelo filho estar doente e descarregam no palhaço ou na pessoa que está ali a passar naquele momento, mas nós sabemos que não é intencional e compreendemos perfeitamente, porque são coisas muito sensíveis e nós também estamos aqui para perceber essas coisas e também ter essa tolerância”, revela o Dr. Bambu.

“Este trabalho não é fácil. Pode parecer que é leve, que é divertido, mas é um trabalho muito difícil”, conta Beatriz Quintela. Segundo a presidente da associação é preciso ser uma pessoa muito equilibrada emocionalmente para trabalhar neste ambiente e por isso mesmo este requisito é um dos mais importantes para se ser Doutor Palhaço. Por isso, é que os artistas da ONV trabalham sempre em dupla. Segundo Beatriz Quintela “é muito importante o trabalho de dupla, porque um artista apoia o outro, quando a coisa está mais dura.”

Existem uns dias mais complicados que outros, em que é preciso fazer um esforço maior para conseguir alegrar as crianças. “Hoje estou com a energia um bocado cá para baixo e faltou-me em alguns momentos a concentração, mas desfrutei”, confessou Anabela Mira. E no fim da visita ao serviço de Pediatria do IPO, o esforço de Anabela e de João foi recompensado: “Estava aqui um menino, fizemos umas brincadeiras com ele e ele riu-se e divertiu-se connosco. A Bia contou-nos que uma médica tinha dito que esse menino ainda não tinha rido e que nós tínhamos feito um belíssimo trabalho por tê-lo feito rir”, revelou João.

Anabela recorda também um dos momentos mais bonitos que viveu na ONV: “Eu e uma colega minha já andávamos há algum tempo a acompanhar uma miúda que tinha mutismo selectivo: só falava mesmo com quem queria e no hospital só falava com a mãe. Houve um dia que ela fechou a porta e disse ‘hoje eu vou falar com vocês’. Fechámos-nos no quarto, corremos a cortina para que ninguém visse e dissemos ‘nós fazemos o que tu quiseres’. Ela disse ‘agora dancem, agora és tu’ e falou com prazer. Foi muito bonito sentir que pudemos estar a transmitir confiança aos outros, para os outros se abrirem connosco.”

Doutores Palhaços profissionais

Os artistas da Operação Nariz Vermelho são escolhidos a dedo. “Fazemos um casting, com artistas profissionais, actores, músicos, que são escolhidos pelas suas qualidades artísticas, pelo seu envolvimento com o trabalho com crianças e pelo seu equilíbrio emocional”, revelou Beatriz. No último casting, a Associação de Apoio à Criança hospitalizada, uma associação sem fins lucrativos que foi criada para levar a cabo o projecto Operação Nariz Vermelho, recebeu 80 currículos de artistas interessados em serem Doutores Palhaços. Escolheram sete.

Para além da formação que já tinham antes de serem Doutores Palhaços, os artistas recebem outras formações organizadas pela associação. “Eles têm formação artística, discutem improviso, malabarismo, magia, música, e depois tem uma parte que é a formação hospitalar: que é psicológica, cuidados paliativos, a morte na criança, o envolvimento psicológico da criança, toda essa parte de higiene, paralisias cerebrais, etc.” A formação artística é dada por professores que a associação contrata e a formação médica é dada geralmente pelas escolas de enfermagem e por outros profissionais de saúde. “Nos também temos um psicólogo que nos dá formação emocional”, revelou Beatriz.

Antes de ser Doutor Palhaço, João Paulo Reis já tinha feito algumas formações de palhaço e de teatro commedia dell’arte, uma forma de teatro popular improvisado, e continua a desenvolver trabalhos como actor. Anabela Mira era e continua a ser actriz e para além do trabalho que desenvolve na ONV colabora regularmente com a Casa da Comédia e é fundadora da Associação produtora de eventos “Crème de la Crème”, juntamente com Andreas Piper, também da ONV. O Dr. Bambu está na ONV há cinco anos e meio e a Dra. Valentina Valentona há quatro anos e meio.

Os artistas da ONV são profissionais e são remunerados através dos fundos que a Associação de Apoio à Criança hospitalizada angaria com a ajuda de empresas, campanhas e sócios. O trabalho é oferecido aos hospitais, mas os artistas são pagos porque dedicam a maior parte do seu tempo a esta actividade. “Não quer dizer que não se possa fazer isto como voluntário, mas exige um investimento da pessoal bastante forte, porque não é só estar no hospital. Andamos sempre à procura de trabalhar outras coisas desde as músicas, às magias, que objecto posso levar para brincar no hospital, coisas para propor ao colega no dia seguinte”, revelou Anabela.

Segundo Beatriz Quintela, “o voluntariado faz-se quando se pode. Eu trabalhava em festas de aniversário e quando tinha tempo na Páscoa, no Carnaval vinha pontualmente fazer um pouquinho. A gente sempre pode oferecer uma ou duas horas, o que é difícil é trabalhar como eles trabalham”. Os Doutores Palhaços trabalham duas vezes por semana durante quatro ou cinco horas, para além das longas horas que têm de formação dada pela ONV.

A história da operação mais colorida de Portugal

Beatriz Quintela, uma das fundadoras da Operação Nariz Vermelho, trabalhava como palhaço em alguns hospitais, como voluntária, e teve conhecimento de um projecto parecido que existia nos EUA. Esse projecto chama-se Clown Care Unit e é um grupo de artistas especialmente treinados para levar alegria a crianças internadas nos hospitais de Nova Iorque.

Inspirada por este caso de sucesso, Beatriz iniciou em 2001, com Mark Mekelburg e Bárbara Ramos Dias, o primeiro programa profissional de visitas em Portugal. Segundo Beatriz ,a missão da ONV “é levar alegria à criança hospitalizada através da imagem do palhaço”, mas o que torna esta “operação” especial é o facto de o palhaço estar integrado na equipa hospitalar e isso faz toda a diferença. “O meu trabalho era pontual e esse trabalho é constante, o meu trabalho era voluntário, esse trabalho é profissional”, acrescenta a presidente da associação.

Desde que começou, o projecto da ONV cresceu muito. “Éramos três palhaços em três hospitais. Sete anos depois, somos 20 artistas em 11 hospitais”. Começaram no Hospital Santa Maria, no Instituto Português de Oncologia de Lisboa e no Hospital D. Estefânia e hoje em dia já não estão apenas na Grande Lisboa, mas também no Hospital São João e no IPO do Porto e também no Hospital Pediátrico de Coimbra. “Temos uma equipa de cinco elementos Porto, que se deslocam para Coimbra e uma em pessoa em Coimbra”, contou Beatriz.

Para além da parte artística, a associação também se encarrega de angariar fundos para pagar aos artistas, controla a qualidade do trabalho destes e para isso conta com mais cinco pessoas para além dos artistas. “São angariadores de fundos, há uma pessoa que toma conta da imagem, uma pessoa que toma conta da imprensa, uma pessoa que faz a tesouraria, um secretário, e a Rita que toma conta dos alunos. É uma equipa grande, para sustentar o trabalho dos artistas.”

Texto publicado na Revista N.